Tinha o cabelo liso pelo queixo sempre muito arranjadinho. Quando íamos sair à noite punha-se de maneiras às quais eu só me pus para a minha festa do baile de finalistas do secundário. Mas mesmo assim arranjava-se sempre, nem que fosse ir para o café da esquina beber bebidas brancas, enquanto eu ia do alto das minhas sapatilhas malhar imperiais. Adorava discotecas.
A primeira vez que fomos juntas a uma discoteca, nós e mais outras oito, aconteceu um desses tristes da vida vir-me perguntar o nome (nunca consegui perceber isto, mas adiante). Provavelmente respondi uma barbaridade qualquer, do género Vanessa Cristina, que o fez afastar-se. Aí a minha amiga inglesa chegou ao pé de mim e proferiu muito alterada:
- Oh!My!God! Did you – like – just kissed that guy?!
Como até sou boa pessoa, deixei passar grunindo qualquer coisa aceitável como “ah,não…”. Mas a ladaínha continuou, quando outro desconhecido (com o dobro da minha idade, diga-se de passagem) se aproximou:
-Oh!My!God! Did you, like, just got that guys phone numbah?
Juro que quase não aguentei. Especialmente porque ela fez isto a cada uma das nove raparigas presentes.
Só já para o fim da noite, quando um desgraçado qualquer passou por mim e eu tive que ouvir outra vez aquele agudo “Oooh!My!God! Do you know, like, THAT guy?!” é que olhei para ela no meu ar mais sério e respondi: “Not really. But we just fucked.”
Gostava de ter o dom da palavra para poder descrever o choque e horror que vi naquela cara tão pálida. Infelizmente ainda está para lá das minhas capacidades.
Só posso dizer que eu e a minha amiga inglesa ainda somos amigas, e quando este Natal me chegou o email das Happy Holidays, não vinha nenhuma pergunta relativa à minha vida sentimental.